Delicatesse. Dona de nenhum perigo construo abismos, navego olhares, mordo palavras, engulo sonhos. Eu provo da loucura folhas de outonos dourados e mastigo sentenças não aprovadas. Violento sorrisos sem medo de culpas, se você não gosta não chegue perto, eu ardo. Minha boca tem o antídoto para vontades, a fina poeira de ventanias em olhos irritados. Na pele uma fogueira enfeita de laço corpos, e peco, peco tanto que já virei perdão na dança única dos delírios de prender entre as pernas o coração de quem amo. Fica quem vence a fera, alcança a fêmea, parte quem não chega, aquele que eu não espero. Eu bebo do gozo o prazer de estar parte do que me faz inteira no alheio respirar ofegante. Escolho o que não sei, observo jogos, se jogo não desperdiço cartas - lanço-me nua. Mando andar quem não é encaixe, costura exata ao meu querer doce, inocente e feroz. Eu sou a oração do meu verso, carne da minha letra, sexo da minha voz. Rouca postura no caminho dos destemidos, enraizados filhos do sol, filtros que fabrico. E de tantas passagens que são passado eu sou o agora todo o tempo e o ontem presente. No ventre a evolução das estações raceiam, na alma guerreia a menina e a sábia -- mundo. Dona de mim e do espelho sou índia, sou filha, sou mãe, sou pátria. Se engasgo o seu passo fique longe, sou indecifrável esfinge aos tolos: sou mulher! ElianeAlcântara.
Enxergo-te nessas canções de saudade onde tudo que gira borboleteia as asas do meu único sonho: ter-te (sempre).
E as coisas que eu não sei brincam de roda diante dos meus olhos a propagar-te amor silente e vivo em tudo o que em mim cabe.
Espaço de mil outras canções meu peito consagra-te dono e rei das minhas fantasias, reais dimensões dos meus passos em teu corpo, sol dos meus desejos.
E essa que sou em planos, efeitos e tudo o mais reflete mar, céu e terra. Vida da vida que nasce, tua.
Nem sei como dizer-te a alegria com que espero
a palavra mais lúcida, secreta e semovente.
Dela, sabe-lo, se alimenta em pleno espaço
a incerta rotação dos amantes e a certeza
de ser seu o repouso. Seja ela a rosa de cristal
que amanhece em tua boca adolescente. E, crê,
por entre o orvalho - hálito da manhã -,
nunca será nosso o esquecimento do Sol.
Poema publicado em Dezembro de 2002
no jornal "O Tecto" de Vila do Conde
(Ano XIV: N º 39).
Cf. página 2.